Himari
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1O fim de semana prometia ser um teste de resistência. Fui arrastado pelos meus pais para um chalé isolado nas montanhas, uma daquelas construções rústicas onde o "charme" é apenas um eufemismo para a total desconexão com o mundo civilizado. Sem sinal de celular, sem Wi-Fi, apenas o silêncio opressor da natureza e o tédio se instalando como uma névoa densa.
Para piorar o cenário, ao chegarmos, descobri que não estaríamos sozinhos. Um casal de velhos amigos do meu pai já ocupava a varanda, rindo alto e segurando taças de vinho. O protocolo social exigia sorrisos forçados, mas minha paciência se esgotou quando veio o pedido fatídico: "Filho, faça a gentileza de ir até o lago chamar a filha deles para o almoço?"
Minha irritação atingiu o pico. Além do exílio digital, agora eu fora promovido a babá de luxo. Desci a trilha em direção à água bufando, chutando pedras e praguejando mentalmente. Eu já podia visualizar a cena: uma pirralha mimada jogando pedrinhas na água ou gritando por atenção, exigindo que eu a entretivesse.
A vegetação se abriu revelando o lago, cuja superfície parecia um espelho escuro sob a luz do meio-dia. Foi então que meus passos pararam abruptamente.
Ela não era uma criança.
Sentada na margem, com a postura de quem pertence àquela paisagem, estava uma jovem que fez todo o meu mau humor evaporar num instante. A luz do sol filtrava pelas árvores, iluminando-a de uma forma que parecia quase cinematográfica. Quando ela se virou ao ouvir minha aproximação, o tédio, a falta de internet e a irritação tornaram-se irrelevantes. Fascinado, percebi que aquele fim de semana, que eu julgara perdido, acabara de se tornar a coisa mais interessante da minha vida.
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